bloqueio criativo

O maldito bloqueio criativo

Você olha para a tela do computador e ela devolve o olhar. Diferente de outras ocasiões, desta vez a tela não parece amistosa, muito menos convidativa. A tela é toda branca, mas mesmo assim você sabe que ela está o observando com um misto de desprezo e piedade. Não importa quantas frases você tente escrever. A tela continua branca e parece que ficará branca para sempre, com aquele maldito ar de superioridade.

Se você trabalha escrevendo, já viveu um momento parecido com esse. Talvez mais de uma vez. O famoso “bloqueio criativo” já aconteceu com você, comigo e com qualquer pessoa que escreve.

Algumas pessoas que trabalham em outras áreas acham o nome charmoso (convenhamos, “bloqueio criativo” soa como algo que afeta apenas autores geniais e problemáticos); outras acham que se trata apenas de preguiça. Quem escreve sabe que não é um ou outro. Quem escreve sabe que o bloqueio criativo é um terror.

Você simplesmente não consegue escrever. Ou a ideia não aparece na sua cabeça, ou ela faz isso de forma tão desorganizada que não se revela nunca.

Assim, você brinca de esconde-esconde com o texto durante horas, procurando por ele em frases jogadas na tela, que parecem dizer apenas que 1) você é uma fraude e 2) chegou a hora do mundo saber disso.

E quem já ficou preso dentro de um bloqueio criativo sabe que o grande segredo para escapar dele é… Bem… Não existe segredo. Não existe uma fórmula para acabar com ele e voltar ao ritmo normal de produção. Essa é a má notícia. A boa notícia é que existem alguns truques que ajudam a driblar essa situação.

O primeiro deles é deixar o computador de lado. Se o texto não está saindo, assuma que isso é problema dele, finja que você não se importa e desligue o computador. Ligue o Netflix, vá jogar videogame, dê uma volta, vá fazer outro trabalho…

E isso não é autoajuda ou um daqueles textos que mostram “como ser feliz sem se importar com o trabalho”. Não, fazer alguma atividade sem relação com o texto é um truque que eu uso bastante, porque eu começo a pensar sobre o texto (e, sim você vai pensar sobre o texto o tempo todo) com um pouco mais de leveza, sem passar nervoso por causa da maldita tela em branco. E quem escreve sabe que textos precisam dessa leveza.

Agora, se o seu prazo está apertado e você precisa entregar o texto em, digamos, uma hora, fazer outra atividade se torna fora de cogitação (talvez um café, mas nada mais elaborado que isso). Nesse caso, você precisa usar outro truque e enganar o próprio texto.

Boa parte dos bloqueios criativos acontece porque a pessoa não sabe como começar o texto. Ela sabe o que o texto precisa ter no meio, talvez até de que forma ele irá acabar… Mas como ela não sabe qual a maneira de introduzir o assunto, tudo fica empacado na tela em branco.

Agora, que tal começar justamente pela parte que você sabe? Se você já tem em mente um trecho do meio do texto, escreva esse trecho. Digite, revise, arrume. Enquanto você faz isso, as chances de outros parágrafos começarem a aparecer na sua cabeça aumentam consideravelmente, porque você está não apenas pensando sobre o texto, mas produzindo.

Muitos textos que eu fiz seguiram esse esquema. Escrevi o terceiro e o quarto parágrafos; voltei para o segundo; finalizei com o quinto e o sexto, e, só então, percebi que o segundo parágrafo não funcionava e o refiz, dividindo em dois parágrafos.

Com isso o texto estava pronto? Não. Tudo o que eu tinha eram pedaços de texto que se encaixavam mais ou menos. Era quase um Frankenstein. Mas agora eu podia revisá-lo, ajustá-lo (ou, se fosse preciso, reescrevê-lo, porque reescrever é mais fácil que escrever) para dar vida a essa criatura, deixando o texto coeso e com ritmo.

Esses truques sempre funcionam? Não. Como eu disse, não há regras para vencer o bloqueio criativo – especialmente porque ele pode acontecer por qualquer motivo.

Às vezes você não escreve por não dominar o tema, então é preciso pesquisar mais o assunto (e conforme você faz isso, o texto pode começar a se formar na sua cabeça). Outras vezes, você entende tanto sobre aquilo que quer escrever que isso se torna um empecilho, porque você não consegue filtrar as informações mais relevantes.

E, claro, sempre acontece de você simplesmente não estar num dia bom – e a vantagem desses dias é que eles sempre acabam a hora que você se deitar.

Então, como eu disse, não há fórmula. Mas o mais importante é não duvidar da sua própria competência por causa do bloqueio criativo. No momento em que você começa a se questionar, é porque o bloqueio venceu. Ele tem que ser tratado como uma gripe, algo que acontece, mas que também vai passar (e vai acontecer de novo). E tenha sempre em mente que isso acontece com todo escritor ou redator (e isso inclui aqueles que você admira).

Aliás, o grande segredo é saber o que o bloqueio criativo não mostra que você é um péssimo escritor. Pelo contrário, ele mostra que você é um escritor.

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Author

Rob Gordon

Publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Já escreveu de tudo um pouco, mas hoje redige principalmente roteiros para canais de Youtube e agências de publicidade (e, quando sobra tempo, ficção). É um dos roteiristas da HQ Terapia, vencedora de diversos prêmios, e coapresentador do podcast Gente que Escreve.


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