O que a pasta de todo profissional de comunicação promissor deveria ter

Deixe de lado os fantasmas e peças conceito que nunca poderiam de fato rolar na vida real. Também não é sobre ter virais, grandes plataformas de user generated content, webséries, ações para ongs defendendo alguma causa ou qualquer outro formato ou cliente específico. O que vamos falar aqui é de uma necessidade que até o Google já reconheceu e que o Brasil ainda tem muito que avançar. Precisamos conversar sobre o valor de projetos paralelos para o mercado criativo.

Há alguns anos, o Google implementou a doutrina dos 20% (conhecida como Innovation time off), uma regra que claramente estimulava a criação de projetos paralelos. De acordo com ela, cada funcionário empregava 80% do seu tempo em suas tarefas centrais e os outros 20% seriam dedicados ao ócio criativo. Ou seja, eles poderiam fazer o que bem entendessem com seu tempo, inclusive produzir algo diferente, que podia ser divertido ou parecer até meio superficial e bobo. Comprovadamente, a empresa teve incrementos na produtividade e dezenas de novos produtos rentáveis foram frutos disso (inclusive o Gmail, o Adsense e o Orkut). Anos depois, o Google acabou retomando seus 20%, mas não antes de ter contribuído em disseminar essa doutrina pelo mercado, com dezenas de outras agências, empresas, startups aderindo à regra.

Desde a tomada de digital, veio a possibilidade inédita de colocar um trabalho na rua de forma independente, low budget ou até no-budget. Somado a esse estímulo das próprias empresas e do hype de agências moderninhas, pudemos acompanhar uma baita mudança comportamental. De repente, um monte de gente começou a aparecer com projetos criativos paralelos aos seus empregos do dia-a-dia. Vimos vários desses projetos deixando de ser uma brincadeira e se tornando o projeto de vida daquelas pessoas. Esse movimento foi tão forte lá fora, que se você fizer uma busca, vai encontrar milhares de artigos em inglês sobre side projects, sobre as vantagens de criar um, tutoriais de como lançar o seu, dezenas de listas mostrando uma série de exemplos gringos bem sucedidos.

Trecho do livro "Steal like an artist" sobre side projects

Trecho do livro “Steal like an artist” sobre side projects

No entanto, quando fazemos essa mesma busca em português, os resultados são muito menores em quantidade e muito menos aprofundados em seu conteúdo. Poucos parecem incentivar esse “can-do spirit” e até dar caminhos para que a gente lance os nossos projetos. Porque isso acontece? Será que temos menos interesse em criar novidades por aqui, mesmo sendo um dos mercados mais reconhecidos por sua criatividade? Será que acreditamos menos no nosso próprio poder criativo? Será que a nossa forma de encarar projetos paralelos que é diferente?

Um empecilho óbvio que muitos podem apontar é que lá fora a possibilidade de ter seu projeto financiado por um venture capital ou um investimento anjo parece muito mais próxima do que no Brasil. Isso se torna uma preocupação quando o projeto precisa de um kick inicial ou para crescer, sem dúvidas. Mas, não é o ponto crucial, ou, pelo menos, não deveria ser, já que projetos paralelos não deveriam ser encarados como modelos de negócio prontos e lucrativos logo de cara. Esse é um empecilho que deveria acontecer mais tarde na timeline de um projeto paralelo, então, não deveria ser isso que afasta as pessoas interessadas.

Tem algo mais importante acontecendo. Aí vai uma percepção e crítica minha ao mercado publicitário atual: claramente ainda não temos uma cultura dos projetos paralelos dentro das agências e empresas. Apesar de muitos diretores de criação curtirem ver iniciativas próprias nas pastas de um possível contratado, não acho que esteja sendo injusta ao dizer que existem pouquíssimos encorajamentos quando o profissional já está lá dentro. No meio do dia a dia, falta tempo para pró atividades, salvo as ideias que estão relacionadas intimamente aos territórios dos clientes e que poderão ser usadas e vendidas para eles.

A frustração parece ser geral. Temos profissionais desacreditados, se refugiando em outras áreas, sem contar os que estão em depressão ou sofrem de síndrome de burnout, um transtorno que dá a sensação de total esgotamento emocional e físico, passando a ficar mais cínicos, céticos, menos comprometidos e eficazes. E essa já não é só uma percepção minha. Nos últimos meses, pudemos ver dezenas de colunas sobre a falta de inovação no mercado e sobre crise na criatividade brasileira com grandes nomes assinando. Por isso, levanto a bola: será que existe relação entre a falta de estímulo aos side projects com a falta de prêmios em digital? Afinal, projetos paralelos são, por sua natureza, dinâmicos, rápidos de implementar, aproveitam timings e usam novas tecnologias. Muito parecido com as necessidades de uma boa campanha digital.

Eu ouso dizer que tem sim relação e que o mercado se beneficiaria muito, se mais profissionais tivessem envolvidos e criando projetos paralelos. Um dos links super completos que existe em português é essa apresentação feita pelo Luciano Braga do Shoot the Shit que bebeu de várias fontes legais gringas e ficou bastante didática e motivadora. Ela explica o básico de como funciona um projeto paralelo, diferencia ele de um hobby que você curte no seu tempo livre e, o mais importante: reconhece o quão valioso ele pode ser para o desenvolvimento de skills de uma forma natural, tranquila e produtiva, pois como tem pouca pressão/deadlines envolvidos e não precisa ser lucrativo, podemos encará-lo como um incrível outlet criativo, onde tudo é possível e um verdadeiro exercício que pode nos manter afiados, motivados, mais ousados e inovadores.

A leitura da apresentação leva apenas uns 10 minutinhos. E eu acrescentaria mais esses pontos à ela:

1) Uma meta pessoal não é um projeto paralelo. Os dois acontecem em seu tempo livre e você faz os dois porque gosta. Mas, enquanto a meta pessoal é: “vou correr todos os dias na praia”, o projeto paralelo tem uma entrega final para o mundo, ele resolve algum problema ou melhora alguma situação, então seria algo tipo “vou correr todos os dias na praia e fazer um mapa colaborativo com os pontos mais legais ou não tão legais/perigosos por ali”.

2) É crucial escolher um assunto, universo, tema que você realmente queira se envolver, que se sinta empolgado e interessado para falar todos os dias – ou com a maior frequência possível. Afinal, você vai precisar se automotivar para manter o projeto rolando, mesmo com todas as outras obrigações da rotina. Se ele for deixado de lado, ele pára de existir e volta para gaveta. Projeto paralelo não atualizado ou em hiatus, não serve para nada, porque você não está construindo ou aprendendo com ele.

3) O dinheiro não existe. Você terá que ser inventivo e colocar a mão na massa em várias coisas que pode não ter um baita know-how prévio para o projeto acontecer. Seja se virando com o layout do WordPress quando nunca aprendeu HTML ou tendo que buscar aliados e parceiros que façam o que você precisa. Você vai ter que se virar e vai aprender um montão no caminho.

4) Implemente rapidamente a sua ideia. Não demore meses para fazer acontecer e não espere ficar perfeito para botar no ar. Primeiro, porque assim você não perde a faísca de empolgação e também porque ideias geralmente ocorrem em vários locais diferentes, ao mesmo tempo, e alguém pode fazê-la antes de você.

5) Se mais de 5 jobs ao mesmo tempo deixam todo mundo louco, ter 5 projetos paralelos ao mesmo tempo, também. Escolha bem os que você realmente acredita e está apaixonado para seguir em frente. Foco e simplicidade é essencial em projetos paralelos, afinal, eles já estão fora do seu horário de trabalho e você ainda precisa de tempo para curtir outras atividades não produtivas e se divertir, vivendo a sua vida. Não esqueça que para ser criativo, você precisa de referências de vida real, e nada disso você encontrar trabalhando o tempo inteiro.

6) O fracasso não existe. Emplacou um projeto paralelo? Aproveite. Você ficará mais visado e valorizado e , se a agência que você trabalha for esperta, vai nadar a corrente com você. Siga em frente e continue evoluindo e vendo onde pode dar. O projeto não deu certo? Ninguém vai saber ou dar atenção, mas ainda assim você ganhou experiência e deve ter acumulado uns bons aprendizados que pode colocar em seu currículo.

Outro bom link sobre projetos paralelos brasileiros é o Projeto Draft, uma plataforma que começou ano passado e que compartilha dezenas de cases da nova economia criativa. Muito do que é mostrado ali, partiu de ideias de profissionais de publicidade e criação que não esperaram um job para encarar e construir coisas novas por aí. As realizações podem estar em diferentes níveis, alguns sem intenção de lucro e outros que já viraram modelo de negócios, mas o que todos eles têm em comum é a vontade de oferecer soluções criativas para problemas reais. Exatamente o que fazemos na agência todos os dias.

Ver projetos reais acontecendo é ótimo para acreditar mais que é possível. Não são aqueles links super aspiracionais (um pouquinho fora de realidade do Hypeness), mas são projetos reais, feitos por pessoas que eram ou são do mercado e estão mais perto do que imaginamos. Para aproximar um pouquinho mais da realidade, vou listar alguns projetos paralelos que utilizaram diferentes plataformas e que tem propostas e tempos de vida diferentes:

Lançamento do livro Indiretas do Bem

Qualquer um desses projetos é um resultado real e super legal para se ter em uma pasta criativa, certo?

Quanto mais analisamos, mais podemos ver que projetos paralelos podem ser bons para criativos em vários momentos de suas carreiras: para quem está começando e só tem uma pasta com peças fake para mostrar; bom pra quem freela e nem sempre tem os clientes ou cases mais legais que apresentem seu potencial de verdade; bom para quem entrou numa rotina do mal e precisa se manter sano, fazendo de seu projeto um refúgio, dando um boost de energia; bom para quem quer se manter atualizado e bem relacionado, fazendo projetos que envolvam mais pessoas; bom para quem quer fazer umas coisas loucas e tentar colar com algum cliente de verdade depois; bom para quem está pensando em largar a vida de agência e ter um negócio próprio.

E quanto mais analisamos, mais podemos ver as vantagens que eles têm para o mercado como um todo. Um profissional que tem disciplina, foco, interesse em melhorar suas habilidades, tão perseverante a ponto de montar um projeto sem uma perspectiva de ganho imediata, e que se motivou a fazê-lo em seu tempo livre, é definitivamente um profissional que qualquer agência deveria querer ter como colaborador. Afinal, as pessoas mais interessadas geralmente produzem as coisas mais interessantes.

Deixo o desafio, o meu encorajamento e minha ajuda para qualquer corajoso que queira fazer parte de um novo momento mais criativo da comunicação. Seja um projeto fotográfico no Instagram, um tumblr divertido, um Kickstarter de uma festa temática. Comece algo. E comece hoje.

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Author

Nathalia Capistrano

Copywriter/Redatora na WMcCann e uma das fundadoras do Trocaderia.


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