Precisamos de um novo jeito de fazer publicidade

Há tempos tenho uma teoria na minha cabeça, de que estamos prestes a passar por um novo “Woodstock” e resolvi compartilhar um pouco deste devaneio aqui. Não falo no sentido de festa, liberdade, “rebeldia adolescente”, hipsters e tudo mais, mas sim pelo espírito de mudança, pelo sinal de “basta” e a vontade de curar ou melhorar uma sociedade doente, com uma cultura cancerígena, em todos os sentidos.

Eu não vivi nos anos 60, mas o que mais me inspira de material referente a esta época é a essência de mentes revolucionárias, descobertas e, principalmente, mudanças. Uma geração inteira envolvida no ideal de “Paz e Amor” (Make love, not war) como um basta a tudo que vinha acontecendo no mundo há alguns anos: 1ª guerra mundial, guerra fria, corrida por direitos civis nos EUA, ditadura no Brasil… naquela época, a TV ajudou este movimento a se espalhar pelo mundo. Nem preciso dizer o papel da internet hoje, não é mesmo?

Paz e Amor Woodstock

Vamos voltar um pouco no tempo e entender o quão importante foi o papel da publicidade para manipular o mundo? Filmes de espiões, corrida tecnológica para provar quem tinha mais poder, Olimpíadas.., tudo girava em torno de mostrar o status do seu país para o mundo. A publicidade nos anos 60 ajudou as pessoas a inserirem fígado na mesa do jantar, comer enlatados, estereotipar a mulher perfeita bela, recatada e do lar, e mais um monte de bullshit que permanecem até hoje. Tudo isso foi virando uma bola de neve, até que o boom aconteceu e uma dos maiores símbolos desta contra-cultura que queria dar reset no mundo foi o Woodstock.

Hoje, novamente, estamos pedindo uma trégua. Na teoria, a Guerra Fria acabou, mas na prática o mundo continua sofrendo, com hábitos e culturas inúteis. Tá tudo errado. A gente compra demais, consome demais, gasta demais, desperdiça demais, quer sempre mais, exige demais e não dá o tempo necessário para a matéria prima respirar, para a ponta mais pobre trabalhar com a mínima dignidade. Monstruosas fast fashions alimentam a vontade de estar sempre na moda, que passa por 52 sub estações no ano. CINQUENTA E DUAS SUB ESTAÇÕES NO ANO. É uma estação por semana. Uma coleção nova por semana. Nem o Schumacher consegue acompanhar.

Fonte: http://www.themadeinamericamovement.com

Fonte: http://www.themadeinamericamovement.com

Se for falar novamente sobre contexto político, temos EUA declarando guerra, com filmes e mais filmes demonstrando soldados americanos como heróis do mundo (opa!). Ataques terroristas matando dezenas de inocentes pelo mundo, discurso xenofóbico de um candidato a presidente, vidas interrompidas por preconceito ou homofobia, em nome de Deus. Ao mesmo tempo que há pessoas lutando por igualdade e o mínimo de respeito como ser humano. E o Brasil, então? Parece que colocaram a gente numa coqueteleira, chacoalharam tudo, e derramaram no balcão do bar. Assim, tudo de uma vez, junto e misturado. Será mesmo que o “boom” não está próximo?

Apesar de ainda estar em uma fase de transição e mudanças de conceitos, há uma enorme parcela de pessoas já gritando “basta”! O low consumerism, por exemplo, não é novidade e vem crescendo a cada dia. Agora você, amigo publicitário, pode vir me perguntar: “e o que eu, mero funcionário, tenho a ver com isso?” TUDO. Isso mesmo: tudo. Qual será seu legado para o mundo? Qual o legado que seu trabalho vai deixar? Não importa se é a marca que traz o pedido, sua profissão influencia gerações e cabe a você saber direcionar, educar e mudar.

Assim, finalmente, chegamos ao ponto que queria: você vai continuar ajudando enormes empresas a ganharem dinheiro, sem devolver nada para a sociedade? Vai continuar errando e não ouvindo este novo consumidor? Influenciar gerações a ficarem doentes por não se encaixarem em um padrão de beleza? Endividar cada vez mais pessoas, porque precisam acompanhar o que está na moda?

Pra falar mais a nossa língua, isso uma tendência mundial. A gente gosta desta palavra, né? Tendência! Pois é, aos poucos, as pessoas estão tomando consciência que existem 2 lados da moeda e estão cobrando mais responsabilidades das gigantes. Ninguém vai parar de consumir, mas vão ter atitudes conscientes – e querem marcas que ajam assim também.

Enquanto a área da publicidade continuar com o pensamento da propaganda dos anos 60, a disputa pela atenção do público vai ser em vão. Ou você, seu cliente ou sua marca acompanha esta mudança e se insere neste novo contexto social mundial, ou pode dar adeus ao seu faturamento. As empresas que entenderam esta nova essência e entregam mais que produtos – entregam boas experiências, atenção, conexão, empatia, representatividade, ou entregam algum projeto para o mundo – já estão ganhando seu espaço.

Mad Men

Imagem Divulgação

Você sozinho não vai mudar o mundo, mas se durante a sua vida profissional você conseguir educar uma marca a fazer campanhas reais, representativas e inclusivas, ela já valeu a pena. Se convenceu uma grande empresa a devolver algo para o mundo, seja com projeto social ou plantando árvores, você também já fez a sua profissão valer a pena.

Eu acredito em uma nova geração, que vai fazer diferente. Que não vão aceitar campanhas fantasmas, machistas, racistas ou estereotipadas ganhando Cannes. Que vão vender, sim mas de forma mais consciente, tratando fazedor e comprador como ser humano, como pessoas reais, com sentimentos e expectativas.

Assim, finalmente, vão entender a essência do consumidor e conversar, se conectar e fazer parte da vida dele.

 

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Author

Karen Formagio

Estrategista / Partner na Media Education e Head de estratégia na TopperMinds, fascinada por comportamento humano, viagens e música.


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