Quer falar sobre representatividade mas não sabe como? Conheça o admirável mundo da cocriação

“Como fazer uma campanha que aborde o público LGBTQ se eu não vivo essa realidade?”, “Como falar com mulheres se a maior parte da equipe é composta por homens?”, “Como vamos nos envolver com a temática da cultura negra se não a conhecemos com profundidade?”.

Se algum dia você já se perguntou ou ainda vai se perguntar algo como isso, já terá andado meio caminho. Pra caminhar a outra metade, tenho uma sugestão.

Vários projetos sobre representatividade estão surgindo e fazem do nosso mercado um lugar mais justo, mais igualitário. Porém, ter humildade e admitir que temos o conhecimento técnico, mas talvez não a vivência suficiente pra tratar do assunto é o primeiro passo para estar no melhor caminho pra acertar.

Enquanto ainda não temos a diversidade necessária dentro das agências e empresas (e precisamos muito buscar isso!), como Planejadora interessada no assunto, tenho visto um possível caminho extremamente válido para nos aproximarmos das realidades a respeito das quais estamos falando, e é sobre isso que venho falar: a cocriação:

Cliente + Agência + Coletivo = especialistas sobre a marca, o cenário, o problema + especialistas a respeito da realidade sobre a qual estamos falando

O grande ponto é que se a gente sente que não tem profundidade, o melhor que a gente pode fazer é trazer pra perto quem entende do assunto, falar com especialistas, consultorias, coletivos, grupos, projetos independentes relacionados a mulheres, negros, LGBTQ, deficientes etc para envolvê-los no trabalho e agregar seus pontos de vista pra criar junto.

Com a cocriação, trazemos mais verdade para o projeto ao darmos o lugar de fala para quem tem legitimidade pra falar.

Não conhece muitos coletivos? A Media Education em breve vai disponibilizar uma lista com vários coletivos para vocês. Sem desculpas!

Para tangibilizar tudo isso, um exemplo recente bem forte de cocriação foi o caso de Skol + MOOC, tendo como resultado o projeto incrível de Skolors.

E já que estamos falando sobre lugar de fala, nada melhor do que ouvir dos próprios protagonistas sobre suas experiências nas 3 pontas: coletivo, cliente, e agência.

COLETIVO

Pra começar, um papo com o Levi, do MOOC.

Levi, conta pra gente o que é o MOOC.

O MOOC é um coletivo com 8 potências criativas que surgiu da união de outros 3 coletivos (Catsu Street, Outro Planet e Future Gang). Cada um tinha uma frente criativa relativa a temas como comunicação, moda, audiovisual, música, festas, fotografia, então decidimos unir essa galera muito talentosa e de habilidades híbridas pra juntos falarmos da cultura negra, mutuamente nos fortalecendo.

“Nós nos descobrimos mais pretos juntos” – É o que diz Kevin David, que também faz parte do MOOC.

A principal missão do MOOC é trazer um novo olhar sobre o jovem negro brasileiro, ressignificar estética, modo de falar, pensar e mostrar que ele pode ser o que quiser.


Coletivo MOOC, formado por Catarina Martins, Kevin David, Suyane, Raphael Fidelis, Lídia Thays, Louis Rodrigues, Vinni Tex e Levis Novaes

Como você e o MOOC veem o cenário dos coletivos e grupos independentes hoje no Brasil?

Estamos em um momento em que tá todo mundo precisando do que esses coletivos estão fazendo, das ideias que estão criando. Tem muita gente boa neles, mentes poderosas que só precisam de acesso, oportunidade.

Vejo que o maior desafio pra que cresçam é não se moldarem ao que o meio espera que façam, mas mostrarem que o que estão fazendo do jeito deles é importante. Outro ponto é que os coletivos têm que valorizar seu trabalho, saberem o quanto valem. E não é pouco!

O mercado também precisa ajudar a impulsionar esse crescimento, gerar economia pra essa galera, abrir espaço, estimular o giro. Investir nos coletivos é estimular o próprio mercado. O ganho será bom pra todo mundo.

O que o Skolors significou para o MOOC?

Legitimar o potencial criativo que deixamos guardado a nossa vida inteira. A melhor forma de mostrar que somos muito mais que um estereótipos pré-concebidos.

Em uma frase, como você acha que o MOOC fez diferença para os projetos em que se envolveu?

Sem o MOOC, poderiam ter sido projetos sem propriedade e sem verdade.

Pra terminar, quais dicas você daria para quem está pensando em trabalhar em parceria com coletivos?

Acima de todas as causas, a gente tá falando com e de pessoas, e todo ser humano merece seu lugar de fala, reconhecimento. É preciso sair da zona de conforto e dar liberdade criativa para o coletivo propor ideias diferentes do habitual.

A marca tem que entender qual o olhar daquele coletivo sobre a temática que trata, o que pode trazer muita riqueza. Não vale tentar se aproveitar do trabalho do coletivo sem pagar, consultoria e ideias são algo abstrato, mas valem muito.

CLIENTE

Na segunda ponta desse projeto, um depoimento do Daniel Feitoza, Gerente de Marca de Skol:

Por que vocês decidiram fazer uma parceria com um coletivo para um projeto de marca?

Skol é uma cerveja inclusiva e democrática. E nos últimos anos tem se aprofundado mais ainda em questões dessa natureza. A parceria com o MOOC surgiu da necessidade de abordar de forma verdadeira e consciente um tema pertinente para a marca, a diversidade racial.

Como você acredita que a cocriação com um coletivo como o MOOC fez diferença para Skol?

Antes de qualquer coisa, a qualidade do trabalho artístico e criativo do MOOC se destacou, juntamente com a profundidade de conhecimento na abordagem do tema. Ao trabalharmos em parceria com eles, garantimos que estamos dando luz e trazendo à tona este assunto de forma coerente, evitando qualquer tipo de equívoco.

Qual o impacto de uma ação como essa para os negócios?

A ação existiu para tangibilizar de forma genuína a visão da marca sobre o mundo. E qualquer iniciativa que consiga reforçar o posicionamento da marca de forma consistente, verdadeira e, principalmente, responsável consegue impactar positivamente os indicadores de negócio da nossa marca. Não consigo abrir números, mas ações desta natureza são muito importantes na nossa estratégia.

AGÊNCIA

E pra fechar a tríade da cocriação, Quentin Mahé, Gerente de Planejamento na F/Nazca, a agência do projeto.

Como você acredita que o trabalho com o MOOC complementou a visão da agência?

Eu acho que este trabalho foi muito significativo para a agência. A F/Nazca, não mais, nem menos do que qualquer outra agência no Brasil (e muitos lugares do mundo ainda), nunca teve colaboradores muito diversos, sejam eles funcionários ou terceiros. Colaborar com um coletivo de jovens negros das periferias de SP foi uma quebra de paradigma e revelador da nossa cegueira sobre talentos “menos comuns”. Diversificar os inputs no processo só pode fortalecer a qualidade do nosso output criativo como agência. Desde então, para o meu maior prazer, algumas contratações foram feitas neste sentido da porta pra dentro.

Em uma frase, como o trabalho com o MOOC foi diferente de um trabalho sem um coletivo?

Este trabalho em colaboração com o MOOC nos deu a credibilidade, a legitimidade necessária para falar desse assunto ainda muito delicado no Brasil.

Qual dica você daria pra agências que querem trabalhar com coletivos?

Nossa ligação com o MOOC começou quando ele vieram se apresentar pra agência toda no nosso formato de mini-palestras chamado de F/Talks. Essa apresentação despertou várias conversas na hora e algumas ideias na F/Nazca, aí depois realizamos esse projeto para Skol. As agências precisam estar mais abertas e trazer cada vez mais a cultura de fora pra dentro. Isso é na minha opinião o passo #1 para trabalhos colaborativos saírem e também uma oportunidade de valorizar o papel importante dos planners nessa tarefa (eles precisam ser os exploradores, olhos e ouvidos da agência).

Se animou pra colaborar com coletivos? Bora ver mais trabalhos lindos e verdadeiros na rua!

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Author

Nathalia Andrijic

<p>Na R/GA, cuida da concepção e estratégia do next, o recém-lançado banco digital do Bradesco. Anteriormente, cuidou de clientes como Nike, TIM, Johnson&Johnson e Ford, na R/GA, DM9 e JWT.</p>


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